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A batata quente: entregue o que não é seu

De longe se ouviam os gritos: __Vou embora, estou indo, não fico mais aqui!!!

Os colegas se entreolharam, um pensou “ganhou na loteria”. A outra pensou “está surtado”. Outros apenas se perguntavam o que estava acontecendo com aquele funcionário dedicado, até demais, ao trabalho.

Ele resolvia todos os problemas, inclusive os dos outros, que não perdiam uma oportunidade de despejar seus imbróglios sobre suas costas. Muitos desses problemas não tinham solução, ou apenas ele não conseguia os resolver. Mas ele abraçava a causa e dizia “sim”, para tudo.

Por que eu? Como resolvo isso? Me amam ou me odeiam? Pensava ele, enquanto bradava que naquele local não permaneceria mais nenhum segundo. Pensava uma coisa e pronunciava outra, devido sua raiva não conseguia raciocinar direito. “Explodi”, “estou colocando tudo pra fora”, “hoje é o dia”.

Entrou de supetão na sala do chefe: — estou indo embora! – gritou mais uma vez.

__ Não sou surdo – o chefe falou. __ O que aconteceu? Está passando mal? Vai ao médico…

— Não aguento toda essa carga de trabalho, todo mundo pedindo para eu resolver as coisas que não sei fazer. Eu não dou conta de resolver todos os problemas do mundo.

—Ufa! Graças a Deus você acordou para a vida.

__ O quê? Eu venho aqui com um problemão e o senhor me parabeniza?

__Muito tempo faz que tento te explicar para “não ficar com a batata quente não mão”!

— O que o sr. disse? Ainda faz piadinha?

—Calma, esse “dia de fúria” estava previsto na sua ficha, chegaria e chegou. Você quer resolver todos os problemas do mundo, mas isso é impossível. Você pega problemas dos outros. Você fica com um problema, insistindo, mesmo que ele não tenha solução ou que ele não seja da sua alçada.

__ Como devo fazer!? O meu jeito de ser bom é assim, ajudando a todos!

__ Você deve entregar os problemas aos seus donos; e naquelas tarefas que te competem e você não consegue resolver, me procura, pede ajuda, repassa para quem pode fazer. Não fica com a “batata quente” na mão.

Não deu tempo de ver seu rosto dizer se tinha entendido o recado, o chefe viu seu dedicado cair desmaiado. A equipe médica fez o socorro e o levou ao hospital, restando apenas as sirenes ao longe diminuindo de intensidade até sumirem.


Texto original de Claudinei Jung. Conteúdo atualizado em 29 de agosto de 2026.

Como citar esse artigo: Jung, Claudinei. A batata quente: entregue o que não é seu. Disponível em: https://claudineijung.com/a-batata-quente/. Acesso em: 20/09/2026.

Claudinei Jung

Claudinei Jung

Advogado trabalhista, professor de direito do trabalho e palestrante.

Categorias:
Direito do Trabalho
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